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autores:outros:montavont-1999-19-32-a-vida-na-fenomenologia-estatica

Montavont (1999:19-32) – A Vida na Fenomenologia Estática

Data: 2025-11-03 17:09

De la passivité dans la phénoménologie de Husserl

De l’acte de conscience à la vie intentionnelle

#### A Vida na Fenomenologia Estática

  • Introdução: O “Viver” como Anúncio da Problemática Genética
  • As múltiplas ocorrências dos termos “vivente,” “vida,” “vivacidade,” “vivenciado” (*Erlebnis*), etc., no período estático da fenomenologia de Husserl, anunciam a problemática genética de uma elucidação de toda a vida intencional.
  • Esse uso de terminologia sugere que o desejo de Husserl de “surpreender *in flagranti* a vida da consciência transcendental em sua própria realização” o moveu desde o início, muito antes da tematização explícita dessa vida.
  • O Vivenciado (*Erlebnis*)
  • A intencionalidade, antes de ser uma função de conhecimento, é primariamente uma função de um viver e o relacionamento com o objeto é, simultaneamente, um relacionamento consigo mesmo.
  • Desde as Investigações Lógicas, Husserl define o ato de consciência como um vivenciado (*Erlebnis*), onde “o que o eu ou a consciência vive (*erlebt*) é precisamente seu vivenciado (*Erlebnis*). Não há diferença entre o conteúdo vivido (*erlebten*) ou consciente e o vivenciado (*Erlebnis*) em si.”
  • O termo *Erlebnis* remete a *Leben* (vida) passando por *erleben* (vivenciar/experimentar), sendo que o verbo *erleben* torna o viver (*leben*) transitivo: eu vivo diferentes *Erlebnisse*.
  • O ato de consciência é intencional por se referir a um objeto, mas é vivenciado ou experimentado por se referir também a si mesmo: enquanto percebemos objetos, “nós vivemos (*erleben*) os atos de percepção.”
  • “Nós vivemos (*erleben*) os fenômenos como pertencentes à trama da consciência, enquanto as coisas nos aparecem como pertencentes ao mundo fenomenal. Os fenômenos em si não nos aparecem, eles são vivenciados (*sie werden erlebt*).”
  • A intenção objetivante se dirige tematicamente ao objeto de forma explícita, enquanto a intenção está presente a si mesma de modo implícito, não objetivante e pré-reflexivo.
  • A consciência que é consciência do objeto é consciência não objetivante de si, ela se vive, é *Erlebnis*, de modo que “A intenção é *Erlebnis*.”
  • O vivenciado estabelece um relacionamento consigo mesmo que precede toda reflexividade e toda consciência posicional e objetivante.
  • O relacionamento consigo mesmo estabelecido pelo ato de consciência não é temático, mas pré-reflexivo ou irrefletido.
  • Quando se diz: “todos os vivenciados são de consciência,” isso significa, no caso dos vivenciados intencionais, que eles são consciência de algo e estão presentes, mesmo que não sejam objeto de uma consciência reflexiva.
  • Os vivenciados já estão presentes no estado não refletido na forma de “fundo” (*arrière-plan*), estando prontos por princípio para serem percebidos, de maneira análoga às coisas não notadas no campo da visão externa (*Ideias I, § 45, p. 83 sq.*).
  • O ato reflexivo revela, acima de tudo, seu caráter de “depois” (*Nachträglichkeit*) ou “após-o-fato”: o vivenciado só pode ser refletido porque já estava lá em modo irrefletido.
  • Ao perceber a árvore, eu me “apreendo” simultaneamente através dessa percepção, e sem essa apreensão, o vivenciado não seria meu, mas essa apreensão não é objetivante nem reflexiva.
  • No ato de perceber, eu me vivo, me experimento em uma relação imediata comigo mesmo.
  • A experiência se desenrola e se realiza antes que o eu a tome como seu objeto, e esse desenrolar é precisamente um viver irrefletido.
  • O vivenciado não existe apenas no momento em que é apreendido reflexivamente: quando a reflexão o apreende, ela apreende um vivenciado que começou antes e sem ela.
  • O vivenciado abre uma esfera irrefletida ou pré-reflexiva que a reflexão deve trazer à luz.
  • “O vivenciado, realmente vivido em um certo momento, se dá no instante em que cai novamente sob o olhar da reflexão, como verdadeiramente vivido, como existindo 'agora'; não é só isso; ele se dá também como algo que acaba de existir e, na medida em que não era olhado, ele se dá precisamente como tal, como tendo existido sem ser refletido.”
  • Husserl distingue a alegria “vivida” (*erlebt*) mas não olhada, da alegria “olhada” (*erblickt*), concluindo que jamais há coincidência entre o que eu vivo e o que eu olho.
  • A possibilidade de a experiência se desenrolar sem o eu (sem que um eu a unifique *ab ovo*, pois essa unificação ocorre a posteriori no ato de reflexão subsequente) não implica uma ausência radical do eu (viver irrefletido não egológico).
  • Essa “ausência” do eu é, na verdade, a participação passiva de um eu sempre já lá: a consciência implícita de si mesmo no modo de um viver irrefletido não significa que a vida seja não egológica.
  • A estrutura do vivenciado é essencialmente ligada à originaridade e à vida: um vivenciado nasce e se esvai, ou seja, ele se torna.
  • “Todo vivenciado é em si mesmo um fluxo de devir, ele é o que é gerando de forma original um tipo eidético invariável: é um fluxo contínuo de retenções e protensões, mediado por uma fase, ela mesma fluente, de vivenciados originários, onde a consciência atinge o 'agora' vivo do vivenciado, em oposição ao seu 'antes' e ao seu 'depois'” (*Ideias I, § 78, p. 149*).
  • O devir do vivenciado é centrado no agora, ao qual Husserl confere o privilégio de fase absolutamente originária (o originário é compreendido temporalmente como presente ou agora).
  • A fase do agora vivo como impressão originária se opõe à retenção e à protensão.
  • O vivenciado está em devir, em movimento, a partir de um agora concebido como fonte jorrante de vida, um *fiat* produtor no qual a operação de consciência jorra originalmente.
  • Husserl estabelece no § 122 das *Ideias I* uma ligação entre a vida e a espontaneidade criadora da consciência.
  • O que é vivente é o que é realmente “executado” (*vollzogen*) pela consciência.
  • A livre espontaneidade e a livre atividade do eu são uma produção original; o eu é qualificado como fonte original de “produções” (*Erzeugungen*), de “iniciativa” (*Einsatzpunkt*), de “*fiat*.”
  • “Cada ato, qualquer que seja o seu tipo, pode ser iniciado no modo de espontaneidade daquilo que se pode chamar um começo criador (*schöpferisch*).”
  • O ato vivente, em relação a toda modificação, é uma impressão no sentido de um vivenciado originário.
  • O vivenciado absolutamente originário são certos protovivenciados, as “impressões,” em relação aos quais as percepções de coisas são vivenciados originários (em relação a lembranças, presentificações imaginárias, etc.).
  • As percepções de coisas têm em sua plenitude concreta apenas uma fase absolutamente originária que se escoa continuamente: “é o momento do agora vivo” (*Ideias I, p. 149*).
  • Há um redobramento da originaridade: o vivenciado irrefletido (*Urerlebnis*) é originário em relação ao vivenciado refletido (sua modificação), e dentro dessa impressão originária, uma fase — o agora vivo — detém a originaridade última, sendo precisamente essa fase qualificada de vivente.
  • A reflexão sobre o *Erlebnis* revela uma tensão entre dois níveis: um pré-reflexivo e originário, e outro reflexivo e derivado.
  • O vivenciado se doa imediatamente (define-se por sua autorreferência) e anonimamente (precede o eu consciente de sua identidade) antes de ser apreendido reflexivamente.
  • A Vida da Experiência
  • Entre os diversos tipos de intencionalidades, a percepção (em sentido lato de “visão” (*Einsicht*) doadora, evidência ou experiência) tem o privilégio de levar a coisa à “doação em pessoa” (*Selbstgegebenheit*).
  • A “apresentação” (*Gegenwärtigung*) (a percepção, que apresenta o objeto em si) é o modo originário ao qual toda “presentificação” (*Vergegenwärtigung*) (o ressouvenir, a expectativa, que o presentificam com a ajuda de uma imagem) remete como modificação intencional.
  • A doação em pessoa da coisa é descrita por Husserl como um modo de consciência “corpóreo” (*leibhaß*): a coisa se apresenta em carne e osso, em sua corporeidade vivente.
  • Husserl refere-se à “operação vivente da evidência” como consciência doadora originária, opondo-a à obscuridade da modificação retencional.
  • O objeto percebido “acessa a consciência em carne e osso” (*in der Wehe des “leibhaft” bewußt*); deve-se falar da “corporeidade vivente” (*Leibhaftigkeit*) do noema.
  • A vida é um modo de doação: a doação em carne e osso; a presença da coisa é o que dá vida à experiência.
  • A vida e a intencionalidade são pensadas em proximidade: é a teoria geral da intencionalidade que motiva a qualificação de um ato como vivente ou não.
  • Essa proximidade sugere o presságio da transição da consciência de ato para a vida intencional.
  • Do ponto de vista estático, o modo originário é caracterizado por sua vivacidade, enquanto o modo derivado é caracterizado pela perda progressiva dessa vivacidade.
  • A forma original da consciência (a experiência ou evidência) é privilegiada como centro e *telos*, sendo o “aparecer” da coisa que a doa em si mesma, em pessoa, em carne e osso, em sua verdade vivente.
  • A percepção doa a coisa em sua presença vivente ao dirigir-se explicitamente ao objeto.
  • “Quando um vivenciado intencional é atual e, consequentemente, executado no modo do *cogito*, nele o sujeito 'se dirige' ao objeto intencional. Ao *cogito* em si pertence um 'olhar para' o objeto que lhe é imanente e que, por outro lado, jorra do 'eu', esse eu não podendo, por conseguinte, jamais faltar” (*Ideias I, § 37, p. 65*).
  • A presença do eu é o que distingue o *cogito* de outros modos de intencionalidade, sendo essa presença o que anima o ato.
  • O *cogito* é um ato no qual o eu está intencionalmente engajado e no qual “vive atualmente de diferentes formas” (agindo, sofrendo, espontaneamente, receptivamente…).
  • É preciso distinguir o *cogito* como ato executado dos atos não executados (atos que se esvaem e esboços de atos) nos quais o eu não “vive” como sujeito operante.
  • “Os vivenciados puramente atuais determinam o sentido forte das expressões tais como '*cogito*', 'eu tenho consciência de algo', 'eu executo um ato de consciência'.”
  • A vida está do lado da consciência atual ou explícita: “o *cogito* em geral é a intencionalidade explícita.”
  • O *cogito* é o ato de um eu vigilante (*waches Ich*) ou acordado: “Podemos definir eu 'vigilante' (*waches*) o eu que realiza continuamente a consciência no interior do seu fluxo de vivenciado sob a forma específica do *cogito*.”
  • A presença da coisa em carne e osso deve-se ao polo egológico capaz de lançar um raio na direção da coisa.
  • O eu como centro de referência é capital porque é o que orienta o ato e lhe dá uma fonte.
  • O ato é vivente desde que tenha encontrado uma fonte a partir da qual pode nascer e dirigir-se ao objeto (o polo complementar).
  • A experiência é vivente desde que emane de um polo egológico que envia seus raios no mundo.
  • A presença da coisa depende da centração do ato em torno de um polo (o eu), o que implica uma presença a si mesmo, mesmo que implícita.
  • A evidência é vivente porque é presença a si mesma e a presença original ou vivente do objeto remete finalmente ao agora vivente (*das lebendige Jetzt*) da consciência.
  • A Vida da *Urimpression* (Impressão Original)
  • A vivacidade do ato e a espontaneidade da consciência devem-se a uma criação originária espontânea da qual o ato extrai sua vida.
  • A análise do presente vivente remete, em última análise, a um agora absoluto não modificado, pensado em sua proximidade com a vida.
  • Na Fenomenologia da Consciência Íntima do Tempo (§ 8), Husserl analisa a aparição de um som como dado hylético, descrevendo o “agora” presente como vivente e a modificação retencional da impressão originária como um obscurecimento contínuo da clareza e uma vida que morre continuamente.
  • “toda a extensão da duração do som, ou 'o' som em sua extensão, se mantém então, por assim dizer, como algo de morto, não se produz mais de forma vivente; é uma forma que não é mais animada pelo ponto de produção do presente, mas que se modifica continuamente e cai no vazio.”
  • O tempo é paradoxal: sou sempre já submetido e engajado nele, mas também o faço surgir pelo meu ser mesmo.
  • A origem é paradoxal: fora do que produz e já dentro do que produz.
  • Husserl relaciona a impressão originária (simultaneamente passiva e ativa) com a vida: “A impressão originária é o começo absoluto desta produção, a fonte originária, aquilo a partir do qual se produz continuamente todo o resto.”
  • A impressão originária “não é ela mesma produzida,” não nasce como algo produzido, mas por *genesis spontanea*; ela é geração originária.
  • A impressão originária não se desenvolve (não tem germe), é criação originária.
  • A *Urimpression* é o “produto originário,” a “novidade,” o que se formou de modo estranho à consciência, e é “recebido” em oposição ao que é produzido pela espontaneidade própria da consciência.
  • Contudo, a espontaneidade própria da consciência tem como característica específica apenas aumentar e desenvolver o produto originário, mas não criar nada de “novo” (*Lições sobre o tempo, Suplemento I, p. 100*).
  • A *Urimpression* é a unidade arqui-originária, fora do tempo e no tempo, temporalizadora e temporalizada, a partir da qual o tempo pode ser pensado.
  • Essa *Urimpression* não é outra coisa senão o presente vivente ao qual o último Husserl remonta, sendo fora do tempo (como sujeito último) e no tempo (como ser individuado).
  • A vida em movimento contínuo só pode ser apreendida a partir de uma origem em movimento, mas a origem só é origem se é constituinte e fora do movimento.
  • A vida só pode ser apreendida a partir do seu interior, mas apenas como produção continuada a partir de um ponto que não lhe pertence.
  • A impressão contém vida, mas uma vida absolutamente iniciadora que não remete a nada além de si mesma (nascimento, gênese, geração).
  • A consciência só é vivente em razão dessa vida primordial que recebe sem a ter gerado: a impressão não tem germe, mas constitui um germe para as consciências que se desenvolvem a partir dela.
  • A impressão é geração espontânea porque não remete a nada além de si mesma: seu ser se esgota em seu modo de aparecer, que é a temporalização do fluxo.
  • O absoluto não é mais um princípio metafísico, mas aparece na própria experiência.
  • O absoluto da impressão não é totalmente estranho porque “eu pertenço a ele” (*j’en suis*), eu vivo essa impressão: antes de ter uma impressão, eu sou essa impressão.
  • Eu sou temporalizado por uma impressão temporalizadora que eu sou na medida em que a vivo, ou me experimento nela.
  • Eu sou temporalizado/temporalizante, sempre já no tempo que faço surgir na sensação.
  • Husserl salienta que o termo “produção” (aplicado ao contínuo do tempo) deve ser entendido no sentido próprio.
  • Nesse nível originário, a distinção tradicional entre receptividade passiva e espontaneidade ativa perde pertinência, pois atividade e passividade se confundem.
  • A descrição da *Urimpression* é inaceitável para uma lógica da não-contradição (como pode ser simultaneamente impressão, consciência impressionável, e o que é recebido passivamente pela consciência espontânea?).
  • O paradoxo de uma recepção ativa e espontânea indica que a vida da impressão originária está além ou aquém da oposição tradicional entre passividade e atividade.
  • A *Urimpression* não é o correlato objetivo de uma apreensão intencional que animaria ou interpretaria (*beseelen, deuten*) um conteúdo de sensação (esquema forma/matéria das Investigações Lógicas).
  • Ela não é o produto da obra de constituição ativa: é anterior à doação de sentido (*Sinngebung*) subjetiva, sendo sua fonte ou origem.
  • O fluxo temporal nasceria, então, de uma fonte atemporal, de um presente fora do tempo que cria o tempo, mas o presente originário parece pertencer sempre já ao fluxo da consciência.
  • O caráter de “recebido” da impressão não deve ser interpretado em sentido naturalista ou realista: a impressão não é o exterior da consciência ou o material amorfo, mas “o que se formou” de maneira estranha à consciência.
  • A impressão já é intenção de sentido, embora não seja um ato do eu no sentido de uma apreensão objetivante do material de sensação.
  • A impressão me torna presente ao mundo porque me torna presente a mim mesmo, antes de qualquer ato reflexivo explícito, ao me afetar.
  • “A aparição originária, e o fluxo originário dos modos de escoamento na aparição, é algo bem fixado, do qual temos consciência por uma 'afeição', sobre o qual podemos apenas dirigir nosso olhar.”
  • A impressão originária me aparece no vivenciado da afeição, o qual pressupõe um distanciamento mínimo entre o afetante e o afetado.
  • Nesse nível de constituição originária, esse distanciamento é a retenção, o escoamento do próprio fluxo temporal.
  • Essa relação consigo mesmo é, ao mesmo tempo, uma relação com o mundo, mesmo que não seja ainda um mundo de objetos.
  • A fusão das noções de passividade e atividade resulta da necessidade de pensar uma relação a si mesmo e ao mundo que não seja de pensamento ou de reflexão explícita, mas sim a relação sempre já tacitamente pressuposta quando a reflexão começa sua obra de constituição.
  • A intenção afetiva exige um novo conceito de sensibilidade: uma sensibilidade que “não é \ simplesmente um conteúdo amorfo, um fato, no sentido da psicologia empirista” mas é intencional “na medida em que situa todo conteúdo e se situa, não em relação a objetos, mas em relação a si”.
  • O tempo (distância ou distanciamento mínimo entre o sentir e o sentido) é a intencionalidade imanente da sensação que lhe permite ser sentida como unidade identificável, apesar de durar e se estender no fluxo do tempo.
  • A sensação também está no modo do esboço (*esquisse*), mas em um modo imanente.
  • O presente vivente só pode se apresentar a um novo presente graças ao distanciamento mínimo da retenção e da protensão a ele ligadas.
  • Apreender uma sensação requer que ela tenha se escoado minimamente (Husserl fala de uma “diferencial de tempo”).
  • O tempo e a percepção surgem apenas no nível da modificação da impressão na série contínua das retenções.
  • A consciência está, assim, sempre atrasada em relação a si mesma ou sempre já se precedeu.
  • A presença é aqui privilegiada, mas é uma presença particular que precisa se ausentar para se apresentar como tal: é no distanciamento mínimo da retenção que a impressão originária se torna presença para e presença a; ela só aparece ao se modificar retencionalmente.
  • Essa modificação retencional não é um ato no sentido próprio, mas um evento: “O distanciamento da *Urimpression* — é o primeiro evento de si, do distanciamento da defasagem, que não se trata de constatar em relação a um outro tempo, mas em relação a uma outra proto-impressão que está, ela mesma, 'no lance': o olhar que constata o distanciamento é esse mesmo distanciamento. A consciência do tempo não é uma reflexão sobre o tempo, mas a própria temporalização: o após-o-fato da tomada de consciência é o próprio após do tempo.”
  • Essa proximidade da vida e do evento aquém do ato objetivante sugere um novo modo de presença: só há presença (mesmo transcendente) temporal, ou seja, só há presença individual: “o que é identicamente o mesmo pode bem ser agora e passado, mas somente porque durou entre o passado e o agora.”
  • O aspecto decisivo nesse nível originário é que a consciência não é pensada como constituinte, mas como evento ou vida.
  • A *Urimpression* questiona a separação entre consciência e mundo: é ela a presença ao mundo anterior à dualidade sujeito/objeto, ou a busca ilusória por coincidir com a origem da própria vida, sem nunca ultrapassar o dado.
  • A Segunda Meditação Cartesiana evoca a “experiência pura e, por assim dizer, muda ainda, que se trata de levar à expressão pura de seu próprio sentido,” sugerindo que a experiência muda é essa vida absoluta que precisa sair do seu silêncio, explicitando seu sentido.
  • Essa vida é revelada como tal somente se seu caráter de irreflexão (que precede todo ato reflexivo) é preservado pela atividade de elucidação.
  • Husserl oscila entre duas concepções inconciliáveis: há uma intencionalidade latente ou operante, mas ela permanece subordinada à intencionalidade autêntica (que visa o objeto idêntico e o conhecimento).
  • Há uma dimensão de passividade afetiva em todos os níveis da constituição, mas ela não tem função de conhecimento.
  • Por um lado, Husserl compreende a necessidade de pensar o além ou aquém da atividade reflexiva de um sujeito; por outro, o eu permanece até o fim como o centro de referência, e o pré-reflexivo só tem sentido em relação ao polo do pensamento reflexivo.

PS: MONTAVONT, Anne. De la passivité dans la phénoménologie de Husserl. Paris: PUF, 1999.

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