Husserl (CCEFT:10-11) – O sentido da história e a filosofia moderna
Data: 2021-10-13 15:30
A crise das ciências europeias e a fenomenologia transcendental
§ 6. A história da filosofia moderna como combate pelo sentido do homem
[HUSSERL, Edmund. A crise das ciências europeias e a fenomenologia transcendental: uma introdução à filosofia fenomenológica. Tr. Diogo Falcão Ferrer. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2012, p. 10-11]
Se considerarmos o efeito do desenvolvimento filosófico das ideias sobre a humanidade no seu conjunto (a que não faz pesquisa filosófica), teremos de dizer o seguinte:
Só a compreensão interna da mobilidade da filosofia moderna, de Descartes até ao presente, una em todas as suas contradições, possibilita uma compreensão deste mesmo presente. Os verdadeiros combates do nosso tempo, os únicos significativos, são os combates entre a humanidade já arruinada e a que ainda se mantém radicada, e que luta por esta radicação, ou por uma nova. Os autênticos combates espirituais da humanidade europeia enquanto tal decorrem como combates entre as filosofias, designadamente entre as filosofias [10] céticas - ou melhor, entre as não filosofias que apenas conservam a palavra, mas não a tarefa - e as filosofias efetivas ainda vivas. Contudo, a vitalidade destas consiste em lutarem pelo seu genuíno e verdadeiro sentido e, assim, pelo sentido de uma humanidade genuína. Trazer a razão latente à autocompreensão das suas possibilidades e tornar assim compreensível 1) a possibilidade de uma metafísica enquanto verdadeira possibilidade - tal é o único caminho para trazer uma metafísica, ou uma filosofia universal, ao curso trabalhoso da efetivação. Só assim se decide se o telos que, com o nascimento da filosofia grega, se tornou inato à humanidade europeia, o telos de - no movimento infinito da razão latente até a manifesta, e no esforço infinito de autonormação por meio desta verdade e genuinidade da humanidade - querer ser uma humanidade a partir de uma razão filosófica, e de só poder ser como tal, é um mero delírio histórico-fático, uma aquisição acidental de uma humanidade acidental, no meio de muitas outras humanidades e historicidades; ou se antes não irrompeu na humanidade grega, pela primeira vez, aquilo que, na humanidade enquanto tal, se definiu, segundo a sua essência, como enteléquia [Entelechie]. A humanidade em geral é, segundo a sua essência, ser homem em humanidades ligadas generativa e socialmente, e, se o homem é ser racional (animal rationale), ele só o é na medida em que toda a sua humanidade é uma humanidade racional - quer orientada de forma latente para a razão, quer abertamente orientada para a enteléquia que chegou a si mesma, que se tornou manifesta para si mesma e que, doravante, conduzirá conscientemente, numa necessidade essencial, o devir da humanidade. A filosofia, a ciência, seria, então, o movimento histórico da revelação da razão universal, “inata” como tal à humanidade.
