* A questão fundamental de uma fenomenologia do evento, que toma o aparecer mesmo como fonte de todo direito, sobre o modo como o evento se mostra a partir de si mesmo.
O questionamento sobre o que, no evento, é propriamente fenômeno e se sua fenomenalidade se declina segundo um modo único ou múltiplos modos.
A tarefa de pôr em luz as maneiras diversificadas segundo as quais, cada vez, o evento se declara.
* A dificuldade de apreensão fenomenológica do que pode receber o título de “evento” e a crítica às abordagens lógico-semânticas.
A refutação da tese de que os eventos dependem conceitualmente de um sujeito lógico, como defendido por Strawson, baseada na concepção de eventos como mudanças em substâncias.
A denúncia do debate lógico-semântico, exemplificado por Davidson, como perpetuador de ilusões gramaticais e metafísicas, ao tratar eventos como “entidades” numa “ontologia”.
A afirmação de que o modo de fenomenalidade dos eventos difere *toto caelo* do modo dos entes, e que só uma fenomenologia que parta das “coisas” tal como se dão pode apreendê-lo.
* A análise do exemplo nietzschiano do relâmpago como evento puro, onde o evento coincide com o próprio ente.
A descrição do evento como “o que se mostra aqui a partir de si mesmo como este sulco luminoso zebrando o céu e logo desaparecendo”.
A constatação de que o evento não tem aqui “nenhum substrato de atribuição ôntica que lhe seja próprio”.
A conclusão de que “o ente que aqui está, o relâmpago, não é justamente senão um outro nome do seu evento: o 'brilhar'”.
* A elaboração dos dois caracteres fenomenológicos elementares do evento, a partir do exemplo do relâmpago.
O primeiro caráter: o evento não é uma mudança que sobrevém no interior de um “sujeito” com um certo modo de ser, pois o “ente” em questão não é nada além da fulguração súbita, o evento de sua própria sobrevinda.
O segundo caráter: o evento, no entanto, só pode aparecer como tal se sobrevém *a* algo ou *a* alguém, se possui um suporte de atribuição ôntica.
A problematização deste segundo caráter: a atribuição é imediatamente problemática e impossível de fixar, pois o evento sobrevém a uma “pluralidade aberta de entes” (o céu, o lago, a paisagem, o caminhante).
* A extensão desta análise aos eventos expressos no modo impessoal, como “chove” ou “neva”.
A interrogação: “A qual ente privilegiado atribuir, por exemplo, o evento tão banal: 'neva'?”.
A descrição da sobrevinda indiscernível do evento a uma multiplicidade: o céu, o ar ambiente, a paisagem toda, ou a mim mesmo que observo.
A caracterização da chuva e da neve como “puros eventos, cuja sobrevinda impessoal coincide com a impossibilidade de toda atribuição ôntica unívoca”.
* A aplicação destes caracteres fenomenológicos a uma categoria de eventos que parecem inicialmente “ligados” a um ente dado.
A consideração de eventos como “o trem entra na estação” ou “a maçã cai da árvore”, onde o evento se apresenta como “ligado” a um ente ocupando a posição de sujeito gramatical.
A admissão de que nestes fenômenos o trem ou a maçã possuem “determinações ônticas próprias” e não se reduzem ao fato de sua chegada ou queda.
A demonstração, no entanto, de que a resposta “ao trem, à maçã” para a pergunta “a quem ou a que sobrevêm estes eventos?” é radicalmente insuficiente.
A descrição do evento da queda como sobrevindo também à árvore, ao observador ou ao pomar todo, e do evento da chegada do trem como sobrevindo também aos passageiros, aos que esperam, ao cais e à estação inteira.
* A síntese dos traços fenomenológicos revelados pelas análises, distinguindo o evento intramundano do evento no sentido estritamente eventual.
O primeiro traço: “O evento, considerado em si mesmo, não é da ordem do ente nem atribuível a um ente univocamente determinável; ele sobrevém a uma pluralidade aberta de entes”.
O segundo traço: “A ausência de todo suporte ôntico de atribuição determinado é o que distingue, desde então, duas espécies de eventos: o fato intramundano, de um lado, e o evento no sentido propriamente eventual, do outro”.
O terceiro traço: “A indeterminação fundamental do sujeito de atribuição ôntica do fato intramundano tem uma contrapartida positiva: a todo fato pertence não uma atribuição ôntica unívoca, mas um contexto eventual, em relação ao qual somente ele toma sentido”.
PS: ROMANO, Claude. L’événement et le monde. Paris: PUF, 1999