====== Romano (1999:46-56) – problema fenomenológico do "mundo" ====== //Data: 2025-10-26 13:00// ==== L’événement et le monde ==== === Fato, contexto e interpretação === * A conclusão de que um evento, como o "clarão" do relâmpago, só pode ser compreendido como um fenômeno particular dentro de um mundo do qual é indissociável. * A descrição do contexto atmosférico do relâmpago: "em plena noite, à beira-mar, eu reconheço o clarão do relâmpago, e distingo-o do clarão fugaz de um farol perfurando subitamente as trevas", precedido pela "secura e calor elétrico" e seguido pelo "estrondo do trovão". * A afirmação de que estes fenômenos concomitantes não são acréscimos fortuitos, mas mantêm uma "relação essencial" com o relâmpago, enquadrando-o num contexto que lhe dá sentido. * A citação de Claudel que evoca a chuva: "ouço de um ouvido e de outro cair imensamente a chuva", comparando o seu ruído monótono ao "tom inumerável e neutro do salmo". * A problematização do conceito de "mundo" de um evento e a sua determinação como uma estrutura hermenêutica. * A interrogação: "Que é preciso entender aqui por 'mundo' de um evento? Como o mundo advém em cada fato intramundano?". * A definição do contexto eventural não como um simples "envoltório" espaço-temporal, mas como "uma unidade articulada de sentido a partir da qual este evento pode ser compreendido". * O papel privilegiado da causalidade, que articula os fatos uns com os outros sob o horizonte de sentido de um contexto. * A definição do mundo como "a totalidade dos possíveis preexistentes a partir dos quais tudo o que acontece acontece, e é suscetível, por consequência, de explicação". * A extensão ilimitada do contexto mundano e a consequente historicidade do mundo. * A constatação de que o mundo de um evento "pode estender-se em direito até às suas causas mais longínquas". * O exemplo da chegada do comboio à estação, que se inscreve no contexto do desenvolvimento dos transportes ferroviários, da evolução das técnicas e da intensificação das trocas comerciais, podendo mesmo anunciar uma modificação da "sensibilidade" artística. * A historicidade do mundo, ilustrada pela interpretação do relâmpago pelos Gregos da época homérica como "expressão da cólera de Zeus", e não como um facto meteorológico. * A primazia da incompreensão sobre a compreensão expressa do evento no seu contexto, exemplificada pela aparição do primeiro automóvel no Sul dos EUA. * A descrição do romance de Faulkner, *The Reivers*, onde a aparição do primeiro automóvel em Jefferson é um *hapax* incompreensível, "cortado do contexto histórico e cultural no qual tal evento tomaria um sentido". * A análise: "não é a compreensão de um contexto econômico e comercial, uma previsão da evolução das técnicas, que preside à compra deste automóvel". * A conclusão: "o evento e o mundo podem aparecer desfasados um em relação ao outro [...] a incompreensão precede assim o mais frequentemente toda a compreensão expressa do evento no seu contexto". * A determinação da compreensão como um projeto do *adveniente* (advenant) e a estrutura triádica de todo o compreender. * A definição da compreensão como "um projeto, isto é, uma maneira para o *adveniente* de se reportar a possibilidades interpretativas, que se efetua, cada vez, segundo uma orientação determinada". * As três determinações de toda a compreensão: * "o fenômeno a compreender (texto, coisa, ou evento)". * "a orientação do compreender, segundo a qual se cumpre o projeto interpretativo". * "o sentido do compreender, que é o que visa pôr a descoberto o projeto interpretativo". * A definição do mundo como o horizonte de sentido de toda a compreensão, englobando tanto as causas como as fins. * O mundo como "a totalidade das possibilidades articuladas entre si a partir das quais uma interpretação é possível". * A inclusão, neste horizonte, não apenas dos "possíveis prealáveis a partir dos quais tudo o que acontece acontece (causas)", mas também dos "possíveis que dependem dos projetos do *adveniente*, e em vista dos quais certos eventos se produzem: os atos". * A definição de "fins" como "os possíveis em vista dos quais age o *adveniente*, que ele é o único a poder projetar, e segundo os quais toma um sentido a sua ação no mundo". * A demonstração de que até os eventos "naturais", como a chuva, adquirem sentido em relação a um sistema de fins projetado pelo *adveniente*. * A análise da chuva como uma "multiplicidade aberta de eventos concomitantes" que só adquire unidade e sentido sob a condição do seu "relação a uma ação pelo menos virtual". * A afirmação: "este evento em si mesmo múltiplo do 'chove' não adquire um sentido e uma unidade para mim que se ele 'entra' na esfera da minha ação e se determina a partir do sistema das fins que o articulam". * A definição de "atos" como o "conjunto dos comportamentos que, na aventura humana, tomam a feição de eventos [...] tais que depende de mim fazê-los advir ou não". * A síntese da significância do mundo como determinada conjuntamente pela causalidade e pela finalidade. * A articulação dos eventos no mundo segundo "uma trama causal, por um lado, e segundo um complexo organizado de fins, por outro". * A interação entre motivo e fim na ação: o motivo (a causa que eu mesmo posso para a minha ação) só toma sentido à luz de uma fim livremente projetada, mas ele próprio se anuncia num "tecido causal" indissociável. * A definição da "mundanidade do mundo" como a sua "significância", articulada pela dupla polaridade do "'porque...'" e do "'para...'". * A introdução da questão dos eventos que, longe de se subordinarem a um horizonte de sentido prévio, o transformam radicalmente. * A interrogação: "toda a compreensão de um evento limita-se a uma apreensão explicitante do seu sentido à luz de um contexto prévio?". * A identificação dos eventos "que, longe de se subordinarem a um horizonte de sentido prévio, transtornam de alto a baixo o que chamámos até agora 'o mundo' no e pelo seu surgimento mesmo". * A caracterização deste surgimento como "necessariamente an-árquico pois subtrai-se justamente a toda a causalidade antecedente e anuncia-se, liberto de toda a relação a um possível preexistente, como a sua própria origem". * A distinção fundamental entre o evento no sentido eventual (*eventualista*) e o evento no sentido propriamente eventual (*eventualista*). * A definição do evento *eventualista*: "o que ilumina o seu próprio contexto e não recebe de modo algum o seu sentido dele [...] ele reconfigure os possíveis que o precedem e significa, para o *adveniente*, o advento de um novo mundo". * A transformação do mundo: "o evento, ao sobrevir, torna o mundo antigo insignificante [...] insignificante, o mundo perde então o traço fenomênico fundamental que o determina justamente como contexto: a sua significância – ele abole-se enquanto tal". * A abertura de um novo mundo: "Antecipando toda a previsão e toda a antecipação, o evento reconfigurou as minhas possibilidades intrínsecas articuladas entre si – o meu mundo –, ele abriu um novo mundo no e pelo seu surgimento". * A necessidade de distinguir dois conceitos fenomenológicos de mundo: um *événementiel* e um *événemential*. * O conceito *événementiel* de mundo: "relaciona-se com os fatos intramundanos, na medida em que estes são compreensíveis e adquirem sentido apenas no interior de um contexto dado". * O conceito *événemential* de mundo: "diz respeito ao evento na medida em que ele se subtrai a todo o horizonte de sentido prévio e, no seu jorrar an-árquico, não se manifesta a si mesmo com o sentido que é o seu senão sob o seu próprio horizonte". * A conclusão: "Sobrevindo assim fora de toda a medida a possíveis prévios – a um 'mundo' no primeiro sentido –, o evento no sentido *événemential* torna-se instaurador-de-mundo para o *adveniente*". * O programa para uma elucidação posterior do evento no sentido *événemential*, baseado numa dupla condição. * A primeira condição: mostrar "em que sentido o evento pode ser dito an-árquico, isto é, liberto de toda a causalidade antecedente". * A segunda condição: elucidar "em que medida, reconfigurando as minhas possibilidades essenciais, ele transtorna os meus projetos e transcende portanto o sistema das fins a partir do qual todo o facto intramundano se torna interpretável enquanto tal". * A afirmação de que só sob esta dupla condição a tese de que "o evento no sentido *événemential* não se inscreve no mundo, mas abre um mundo para o *adveniente*" poderá receber um sentido e exibir os seus pressupostos fenomenológicos. ---- //PS: ROMANO, Claude. L’événement et le monde. Paris: PUF, 1998.//