====== Vincent Gérard (1999) – A Krisis de Husserl (2) ====== //Data: 2025-11-03 15:01// ==== La Krisis de Husserl ==== === Krisis III: A questão das vias para a redução === #### A Via Cartesiana * 1. A Estrutura da Via Cartesiana * A expressão "caminho cartesiano" em Husserl é ambígua, pois sua filosofia surge como um cartesianismo radicalizado e, ao mesmo tempo, um cartesianismo invertido, mas pode ser recapitulada em quatro pontos principais. * O primeiro ponto é a exigência de apoditicidade do ponto de partida, segundo a qual a filosofia deve ser uma ciência absolutamente fundamentada, edificada a partir de um começo absoluto (ou um "ponto de Arquimedes"), o qual deve residir em uma evidência absoluta, ou seja, indubitável e sem pressupostos. * O segundo ponto é a constatação de que nenhum conhecimento transcendente do mundo satisfaz a essa exigência, pois a crença na existência do mundo, que é o fundamento de todo conhecimento mundano, não possui evidência absoluta; consequentemente, o filósofo que começa absolutamente deve exercer a epochè – ou seja, deve colocar fora de circuito – a crença no mundo e, por extensão, todo conhecimento do mundo, mesmo o de natureza científica. * O terceiro ponto é a permanência de uma conhecimento admissível após a suspensão de todo conhecimento transcendente do mundo: Husserl responde que o cogito permanece como objeto de conhecimento imanente e absolutamente evidente, constituindo o ponto de partida para a filosofia. * O quarto ponto esclarece que o cogito em Husserl não revela uma substância, mas sim uma evidência, e não se resume à *res cogitans*, mas sim desdobra a unidade *cogitatio-cogitatum*. * O cogito intencionalmente carrega consigo, não na imanência real, mas na imanência pura, o mundo inteiro como seu cogitatum, o qual passa a fazer parte da esfera de evidência absoluta, juntamente com a *cogitatio*, da qual é o correlato objetivo. * Dessa forma, o mundo, embora suspenso pela *epochè*, continua presente para o filósofo, porém, não em seu valor original, sendo ganho como "fenômeno" do eu, em vez de ser perdido. * 2. As Insuficiências da Via Cartesiana * No § 43 da Krisis, Husserl expressa ressalvas à via cartesiana, as quais podem ser agrupadas em três dificuldades distintas. * 1) A Crítica do Resíduo e do Estatuto do Mundo * A primeira deficiência tradicionalmente atribuída à via cartesiana é que a redução transcendental é apresentada como uma peneira que separa o "joio do bom grão", sugerindo que algo é perdido (o mundo) e algo é retido (a consciência) como um resíduo. * Husserl ameniza essa perda ao enfatizar que o mundo não se perde, uma vez que, como correlato intencional do cogito, ele é incluído no campo de investigação do fenomenólogo. * As seções III e IV das Ideias I confirmam que a análise constitutiva se estende aos objetos transcendentes, pois, embora não façam parte da imanência real, são integrados à imanência pura. * A crítica reside no fato de que o mundo é apreendido apenas como "fenômeno", ou seja, como "representante subjetivo," sugerindo que, reduzido ao seu status de *phainomenon*, ele seria despojado de seu sentido de transcendência, passando a ser considerado excluído. * A deficiência não está em limitar-se à exploração da componente "realmente imanente" da consciência (o que seria insustentável, já que o caminho cartesiano reconhece a possibilidade de posicionar a existência de objetividades não realmente imanentes), mas em não explicitar a diferença entre o caráter realmente imanente de algumas objetividades e o caráter "transcendente" de outras, dentro do conjunto de todas as objetividades promovidas à dignidade da evidência descritiva. * No caso das objetividades "transcendentes" intramundanas, a análise da correlação noético-noemática revela como é constituído seu caráter de objeto, mas não necessariamente como é constituído seu caráter de coisas, o qual exige mais do que o ato de doação-recepção, demandando a integração em um encadeamento de tais atos, ou seja, o desdobramento de uma "experiência." * A deficiência da via cartesiana paradoxalmente reside no fato de que as Ideias I não dão conta suficientemente do tipo particular de constituição das objetividades que se dão com um sentido de transcendência apenas mediante sua integração em uma experiência. * Ao reduzir o mundo ao status de fenômeno, a via cartesiana pode levar à falsa ideia de que a *epochè* é provisória e que a *doxa* do mundo poderia ser recuperada após uma justificação adequada. * Husserl adverte contra a tentação de conceber a *epochè* como meramente provisória, uma vez que o iniciante (no qual Husserl se inclui, reivindicando em sua maturidade o nome de "verdadeiro principiante") é tentado a pensar que o momento em que se terá novamente experiência e pensamento no modo natural e se estará satisfeito com as ciências em seu modo natural acabará por retornar. * Não se pode prejulgar que a redução transcendental deva ser guiada pela ideia de que a fé perceptiva deve ser restabelecida em seus direitos, pois tal perspectiva reduziria a *epochè* ao simples papel de esclarecimento das ambiguidades da fé perceptiva. * O segundo aspecto da dificuldade não se refere mais ao mundo, mas ao status da consciência a ele relacionada. * A redução, pensada como perda que faz surgir um resto ou resíduo, possui apenas um caráter restritivo e limitativo, e, portanto, não pode aspirar à universalidade, pois se limita à exclusão da região natureza e deixa intocada a região consciência. * O § 49 das Ideias I chega a caracterizar a consciência absoluta como "resíduo do aniquilamento do mundo." * Embora Husserl afirme que "nada perdemos, mas ganhamos a totalidade do ser absoluto," é difícil ver o todo do ser absoluto naquilo que é apenas um resíduo, ou seja, uma região ou parte do ser. * Husserl reconhece na Krisis que a via cartesiana coloca em dúvida "o que se pôde ganhar por isso," pois o que pode "restar" senão uma parte? E o que pode ser a consciência como parte, senão a parte psicológica do mundo? * Husserl adverte: "Corre-se também o risco, como mostrou o modo como minhas 'Ideias' foram recebidas, de recair muito facilmente, e quase desde os primeiros começos, por uma tentação imediata e muito grande, na atitude natural." * O "salto" realizado na via cartesiana entrega um ego tão purificado que se torna um ego vazio, cuja única forma de preenchê-lo seria transpor para ele o conteúdo das análises realizadas sob o regime da atitude natural. * 2) A Incapacidade de Atingir a Subjetividade em Sentido Pleno * A segunda insuficiência da via cartesiana reside em sua incapacidade de alcançar a subjetividade em sentido pleno. * Por um lado, a via cartesiana não atinge a intersubjetividade, a qual Husserl reconhece como constituinte da subjetividade em sentido pleno. * Os outros sujeitos ou cossujeitos são dados apenas por "indicação" ou "apresentação," por meio das coisas reais que eu experiencio como sendo seus corpos. * Na qualidade de fenomenólogo, se não tenho mais o direito, no modo natural, de "atribuir valor" de realidades existentes às coisas, também não tenho o direito de atribuí-lo aos corpos orgânicos alheios. * O motivo para a indicação da vida psíquica alheia desaparece, pois esta só existe para mim na medida em que é apreendida por seu corpo orgânico. * Na via cartesiana, "uma fenomenologia transcendental só poderia ser possível, ao que parece, a título de egologia transcendental. Enquanto fenomenólogo, sou necessariamente um pensador solipsista, embora não o seja no sentido ridículo comum enraizado na atitude natural, sou-o, no entanto, no sentido transcendental." * Husserl observa que "durante anos, eu não via nenhuma solução para transformá-la em redução intersubjetiva." * Por outro lado, a via cartesiana também não leva à plena subjetividade própria, que não é apenas uma subjetividade no presente, mas inclui uma dimensão de passado e de futuro. * Nas lições de Filosofia Primeira (1923/24), Husserl mostra que a vida passada e futura da subjetividade só é concebível por meio de uma dupla redução. * Uma lembrança me oferece o transcendental de duas maneiras: em primeiro lugar, o "eu me lembro" subsiste como meu vivenciado atual percebido na reflexão, mesmo que eu suspenda o universo inteiro ou iniba toda a crença na experiência sobre ele. * Em segundo lugar, nesse vivenciado presente, se representa para mim, por exemplo, o passeio de ontem ao castelo, que é um evento do passado, implicando que o vivenciado "eu me lembro" inclui o "eu percebi" e o ato passado inclui um "eu quis e agi." * Embora o castelo, meu corpo, etc., como existência passada, sejam nulos ou ilusão transcendental, a continuidade do perceber que dava valor de realidade perceptiva ao meu caminho e objetivo não é abolida pela abstenção de todo julgamento sobre o ser mundano. * "Cada lembrança admite, evidentemente, uma dupla redução transcendental: de uma resulta a lembrança como meu vivenciado transcendental presente, enquanto a segunda, que intervém de maneira singular no conteúdo reprodutivo da lembrança, revela um fragmento de minha vida transcendental passada." * Algo análogo é válido para a obtenção do futuro do fluxo do vivenciado transcendental. * O mundo passado e futuro em sua temporalidade objetiva representa o "fio condutor" necessário para revelar minha vida transcendental passada e futura; se não houvesse para mim agora um mundo passado ou futuro no qual eu vivi ou viverei, também não haveria para mim vida transcendental passada e futura. * Não se pode, portanto, "suspender pura e simplesmente" o horizonte do mundo, uma vez que a esfera transcendental pura (por exemplo, a do passado) só é alcançada concebendo a si mesmo primeiramente em seu horizonte de passado como um eu humano que viveu em seu mundo circundante agora passado e em relação intencional com ele. * 3) O Problema da Apoditicidade do Cogito Temporal * A via cartesiana apresenta uma terceira insuficiência, ligada à exigência de um começo absoluto da filosofia. * Nas Cinco Lições de 1907 e nas Ideias I, Husserl reivindica evidência absoluta para a subjetividade alcançada pela via cartesiana, mas nas lições de Filosofia Primeira de 1923/24 e nas Meditações Cartesianas, ele abandona essa pretensão, adiando a prova de sua doação absoluta. * Isso levanta a questão se a atitude de Husserl é mera procrastinação ou se qualquer tentativa de evidenciar um conteúdo apodítico no cogito que sirva como ponto arquimediano é impossível por princípio, ou seja, se o cogito, enquanto temporal, encerra algum conteúdo absoluto apreensível na evidência. * É verdade que o próprio ego transcendental e a própria vida gozam do privilégio de um dado primeiro e originário para mim, pois só tenho acesso direto a mim mesmo pela experiência de mim mesmo, através da percepção, lembrança e expectativa de mim mesmo. * A subjetividade alheia só pode ser experienciada no modo mediato da indicação, implicando uma intencionalidade de segundo grau e mediata. * A busca por um conteúdo apodítico deve ser dirigida ao próprio ego transcendental, que me é dado originariamente e é o único a sê-lo, e não à subjetividade alheia. * No entanto, a subjetividade transcendental em geral é dada em graus de imediatidade e mediatez relativas, e mesmo a imediatidade com que sou dado a mim mesmo tem seus graus. * Sou dado a mim mesmo de forma absolutamente imediata apenas no presente de minha vida, do qual tenho a experiência mais imediata, a percepção. * De meu passado e futuro, tenho apenas a lembrança que os evoca e a expectativa que os antecipa, o que já implica mediatezes intencionais. * O passado e o futuro de minha vida transcendental própria são, de certa forma, como a subjetividade alheia: são dados apenas mediatamente. * Para Husserl – desde os anos vinte – o conteúdo do passado e do futuro de meu fluxo de vivenciado não pode ser caracterizado como apoditicamente evidente, pois a recordação e a expectativa podem ser enganosas por princípio. * Apenas a forma do passado e do futuro, ou seja, a forma temporal do fluxo do vivenciado, possui apoditicidade. * A busca por um conteúdo apodítico no cogito, portanto, restringe-se à consideração do presente vivo e fluente. * Uma análise mais detalhada revela que a esfera do presente também possui uma estrutura análoga, com distinção entre dados intencionais imediatos e mediatos. * O ponto de chegada é o ponto-limite flutuante do agora puro, ou, correlativamente, a pura percepção de si desse agora momentâneo originariamente vivo, e uma fase de retenção original e de uma protensão original, cuja intencionalidade é mediata. * O que foi dito sobre a subjetividade alheia e a subjetividade própria pode ser dito sobre o presente vivo, distinguindo-se o "ponto-limite do agora" e as retenções e protensões que o acompanham, mesmo que se fale de uma percepção de si concreta e de um presente concreto. * O presente vivo e fluente, na medida em que só é apreendido como fluente na retenção e protensão, revela uma estrutura mediata, tornando a apoditicidade problemática também nesse nível. * Restam apenas dois momentos apodíticos de meu cogito: a forma temporal e a existência de meu eu, mas nenhum desses dois momentos é um conteúdo. ---- //PS: GÉRARD, Vincent. La “Krisis”, Husserl. Paris: Ellipses, 1999.//