====== Dufour-Kowalska (1980:38-40) – autonomia da essência ====== //Data: 2024-12-01 10:34// O que é que significa a autonomia da [[essência]]? Significa a realização da essência em si e por si mesma. Implica, portanto, o postulado da [[manifestação]] da essência. “A essência da manifestação (deve) ser capaz de se manifestar”, diz M. Henry [MHEM, 164]. Porque a essência se realiza em si e por si mesma, o fundamento da sua manifestação está nela própria e na estrutura que a define. O problema que agora se coloca é o seguinte, segundo a ordem das questões que levanta: como é possível a manifestação da essência da manifestação? Qual é a estrutura da essência da manifestação, uma estrutura tal que torna possível precisamente a manifestação da essência? A elucidação desta problemática constituirá um desafio aos pressupostos ontológicos fundamentais do monismo e inaugurará o processo de determinação positiva do fundamento autêntico da fenomenalidade, daquilo a que M. Henry chamará então a “essência originária da revelação”. Afirmar a autonomia da essência é imediatamente postular o caráter originário da sua manifestação e, por conseguinte, a sua necessidade ou realidade. Com efeito, que o ser deve mostrar-se em si e por si mesmo, este postulado significa de fato que ele já se mostra, antes de qualquer processo, numa manifestação que repousa unicamente sobre si mesmo. Podemos, pois, dizer que a manifestação de si [39] pertence necessariamente à essência da manifestação. “A manifestação de si”, diz M. Henry, “é a essência da manifestação” [Id. 173], ou ainda — porque o fundamento de toda a manifestação é a essência de toda a presença, o ser presente de todo [?ser-aí] — “a essência do ser é a manifestação de si” [Ibid.]. Autônoma e original, a manifestação do ser não resulta de nenhum progresso, não depende de nenhum processo, não está ligada ao devir de nenhum saber. E é por isso que, como agora compreendemos melhor, o saber filosófico pouco importa, “a filosofia chega sempre demasiado tarde”, escreve M. Henry, tomando de empréstimo uma fórmula célebre ((Cf. Hegel, Principes de la philosophie du Droit, Préface, Paris, Gallimard, Idées, 1963, p. 45.)), “porque o que ela diz estava no princípio” ((MHEM, 206. Assim, para M. Henry, a fórmula hegeliana assume um significado rigorosamente oposto ao pensamento de Hegel. Recordemos o texto: “A filosofia chega sempre demasiado tarde. Como pensamento do mundo, ela só aparece quando a realidade completou e terminou o seu processo de formação”. Pensamento do crepúsculo e pensamento da aurora.)). A consciência filosófica apenas tematiza, coloca como seu objeto, aquilo que, para existir, não precisa de objetividade e cuja revelação é independente de toda a consciência, filosófica ou não. Quer isto dizer que a manifestação original transcende toda a [[consciência]]? Muito pelo contrário. Por ser a realidade originária, ela nunca se fenomenaliza no campo de irrealidade constitutivo de toda a transcendência, nunca é oposta ou está para além da consciência, mas permanece nela e é-lhe interior, para ser o seu fundamento. O que determina a vida da consciência não é uma simples condição formal e vazia, mas a presença originária, o ser atual de toda a presença, isto é, o ser consciente na sua essência, na sua vida originária. Para Henry, a consciência não é um “ser das lonjuras”, como em Heidegger, nem a “fuga perpétua de si” que a define Sartre. Porque a manifestação da essência é autônoma e original, porque é absoluta, realiza-se na proximidade, na intimidade da consciência, é de fato idêntica a ela, na medida em que constitui a estrutura ontológica da consciência universal. Assim, a verdade não pode ser o objeto ou o fim de uma busca, porque nunca é transcendente à consciência, “nunca é exterior” e, neste sentido, como se diz de novo, “nunca é desconhecida” [Id., 192]. E é por isso que não há consciência privilegiada. “Longe de surgir apenas [40] num modo específico da vida da consciência, a [?Parusia] constitui a própria essência desta vida e, como tal, a condição de todas as determinações que esta vida é capaz de dar a si mesma” [ID, 174]. A consciência vive na presença do ser, ou melhor, ela é, por essência, essa mesma presença. Mas qual é o modo desta presença, um modo tal que ela realiza uma presença absoluta, a manifestação em si e por si do ser? A elucidação do [conceito monista de essência->monismo-ontologico] permitiu a M. Henry pôr em evidência a autonomia radical da essência e afirmar assim o carácter absoluto da sua manifestação. Devemos agora perguntar: o conceito monista de essência, ou seja, o horizonte transcendental do ser, contém os elementos necessários capazes de fundar tal manifestação? Ou ainda: o processo de objetivação que, segundo o monismo, determina, como condição da sua efetividade, a manifestação da essência, contém as condições da sua manifestação absoluta? Em suma, pode a transcendência ser o seu próprio fundamento, o fundamento da sua própria manifestação? A questão da possibilidade da manifestação originária da essência, colocada no monismo ontológico ao próprio monismo, é o teste decisivo a que M. Henry o submete. A legitimidade de um pensamento que pretende apreender e determinar o fundamento último da fenomenalidade na abertura do horizonte transcendental do ser, isto é, na pura exterioridade, depende da resposta a esta questão. ---- //PS: DUFOUR-KOWALSKA, Gabrielle. Michel Henry. Un philosophe de la vie et de la praxis. Paris: Vrin, 1980//